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[...] A cidade do colono e uma cidade solida, toda de pedra e ferro. E uma cidade iluminada, asfaltada, onde os caixotes de lixo regurgitam de sobras desconhecidas, jamais vistas, nem mesmo sondadas. Os pes do colono nunca estao a mostra, salvo talvez no mar, mas nunca ninguem esta bastante proximo deles. Pes protegidos por calçados fortes, enquanto as ruas de suas cidades sao limpas, lisas, sem buracos, sem seixos. A cidade do colono e uma cidade saciada, indolente, cujo ventre esta permanentemente repleto de boas coisas. A cidade do colono e uma cidade de brancos, de estrangeiros. A cidade do colonizado, ou pelo menos a cidade indigena, a cidade negra, a medina, a reserva e um lugar mal afamado, povoado de homens mal afamados. Ai se nasce nao importa onde, nao importa como. Morre-se nao importa onde, nao importa de que. E um mundo sem intervalos, onde os homens estao uns sobre os outros, as casas umas sobre as outras. A cidade do colonizado e uma cidade faminta, faminta de pao, de carne, de sapato, de carvao, de luz. A cidade do colonizado e uma cidade acocorada, uma cidade ajoelhada, uma cidade acuada. E uma cidade de negros, uma cidade de arabes. O olhar que o colonizado lança para a cidade do colono e um olhar de luxuria, de inveja. Sonhos de posse. Todas as modalidades de posse: sentar-se a mesa do colono, deitar-se no leito do colono, com a mulher deste se possivel. O colonizado e um invejoso. O colono sabe disso; surpreendendo-lhe o olhar, constata amargamente, mas sempre alerta:
Eles querem tomar o nosso lugar.
E verdade, nao ha um colonizado que nao sonhe pelo menos uma vez por dia em se instalar no lugar do colono.
Franz Fanon
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Oct 11, 2006
2:13 AM
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