..."Aproximava-me da fronteira chilena quando de um lugar próximo ouvi uma voz fraca, muito fraca, que dizia: «Não posso mais, fico por aqui.» Assustado. olhei em todas as direcções à procura do dono da voz, mas não vi ninguém. Então falei à solidão: «Não te vejo. Mostra-te.» A voz fraca deixou-se ouvir novamente: «No teu sovaco esquerdo. Estou no teu sovaco esquerdo.» Enfiei a mão entre as peles e apalpei qualquer coisa entre as rugas do sovaco. Ao tirá-la apareceu um piolho agarrado ao meu dedo, um piolho tão fraquinho como o meu cavalo e eu próprio. Pobre piolho, pensei, e perguntei-lhe desde quando vivia ele no meu corpo. «Há muitos anos, muitos. Mas chegou a altura de nos separarmos. Embora eu não pese nem uma grama, sou uma carga inútil para vós e para o cavalo. Deixai-me no chão, companheiro.» Senti que o piolho tinha razão e deixei-o debaixo de uma pedra, escondido para não ser comido por algum passáro das colinas. «Se me correrem bem as coisas no Chile, quando regressar procuro-te e deixo que me piques tudo o que quiseres», disse-lhe ao despedir-me.
No Chile correu-nos tudo muito bem. Aumentei de peso, também o cavalo engordou, e quando ao fim de um ano empreendemos o regresso com dinheiro no bolso, sela e esporas novas, procurei o piolho onde o deixara. Encontrei-o. Estava mais fraco ainda, estava transparente e já quase nem se mexia. «Estou aqui, che piolho. Anda e pica, pica tudo o que quiseres», disse-lhe, metendo-o no meu sovaco esquerdo. O piolho picou, primeiro devagarinho, depois com força, com vontade de chupar sangue. De repente, o piolho começou a rir-se, e eu também me ri, e o meu riso contagiou o cavalo. Atravessámos a cordilheira a rir, ébrios de felicidade, e desde então esta passagem da montanha chama-se Paso de la Alegría. Tudo isto aconteceu, como lhes disse, há algum tempo, no ano do Inverno mais terrível..."
Luís Sepúlveda, in Patagónia Express