O lótus, emergindo imaculado entre lodos e pantanais, é um dos mais antigos símbolos da criação, da pureza e da iluminação a que a alma humana aspira.
Nascido da sujidade e da lama, aparece à superfície das águas e abre as suas pétalas, incólume a tudo o que o rodeia. Por crescer imaculada em águas pantanosas, a esta flor simples e bela é atribuída uma origem divina.
O lótus é um dos emblemas mais conhecidos do budismo. Os povos orientais têm esta flor como sinónimo de espiritualidade, poir acreditam que ela só desabrocha aqui na Terra depois de ter nascido no mundo espiritual. É considerada como um símbolo de pureza, pois, apesar de as suas raízes mergulharem no lodo dos lagos, as flores desabrocham, belas e puras, acima da superfície das águas. Neste contexto religioso e místico, a flor de lótus representa a pureza do espírito e está inclusivamente ligado à linguagem de Buda: «Da língua do Omnisciente nasce o lótus imaculado que, embora tenha vindo ao mundo para proteger os seres atolados no pântano do Samsara, permanece puro e imaculado. A sua cor é perfeita e o seu perfume divino.»
Existe uma palavra, Padmasambhava, que significa literalmente aquele que nasceu do lótus. Nascido de uma flor de lótus, no centro de um lago, este era o segundo Buda que estabelecia o budismo no Tibete, em meados do século VIII, exercendo poderes para subjugar os demónios.
Dizem os orientais que dentro do corpo humano há um pequeno lótus, sem defeitos e puro, que é a residência do Supremo.
É no interior desse pequeno espaço que se encontra a capacidade de ultrapassar a dor, o mal e tudo o que é «lodoso» ou «sujo». Por isso se diz, em meditação, que a «posição de lótus» é das mais favoráveis para que se consiga elevar o espírito a outras dimensões, esquecendo a matéria e as limitações físicas.
Para nós, ocidentais, é importante entender o verdadeiro sentido da meditação. Através dela é possível entrar num estado de consciência que nos permite um melhor entendimento da nossa própria mente. O objectivo final é alcançar a fonte da vida (o nosso lótus interior), libertando- nos da ansiedade, das depressões e do cansaço. A mente é o somatório de todos os nossos condicionamentos, padrões de pensamento, da memória e do lado racional.
Mas quando olhamos o reflexo do nosso Eu superior no «lago» inquieto da mente, conseguimos finalmente encontrar a serenidade (emergir das águas turvas).
Embora as raízes fiquem presas ao lodo, nada impede que as pétalas se abram diante do sol, deixando que a claridade anule os efeitos negativos dos sentidos (o lodo).
Na realidade, a flor de lótus é reverenciada por vários povos como flor sagrada. O seu nome científico é Nelumbo nucifera, e tem origem do sudoeste da Ásia.
Pertence à família das ninfeáceas e o seu período de floração vai da Primavera ao início do Verão. Pode produzir flores brancas, cor de rosa, ou brancas com os rebordos rosados. Também é conhecida como lótus-egípcio, lótus-sagrado ou lótus-do-egipto. Além de nascer naturalmente nos lagos e nos pântanos, esta flor pode ser cultivada em vasos ou tanques de jardim. Para que floresça com facilidade, utiliza-se uma mistura de terra argilosa com um composto orgânico de origem animal. Por ser uma planta aquática, o lótus não precisa ser regado, mas sim de ficar imerso nessa mistura de água com argila. A sua capacidade de auto-limpeza é surpreendente: a sua superfície lisa (coberta por milhares de poros microscópicos) impede que a sujidade se acumule.
Nem a água adere às suas pétalas, pois os pingos unem-se e rolam como mercúrio de um termómetro partido. E quando rolam, transportam consigo toda a sujidade. O longo caule do lótus é o cordão umbilical que une o homem às suas origens, ao passo que a flor perfeita representa o sol emergindo do oceano cósmico. A flor está também ligada ao ciclo de nascimento e renascimento, uma vez que as suas pétalas abrem ao alvorecer e fecham-se ao pôr do sol.
A LENDA DA FLOR DE LÓTUS
Diz-se que certo dia, na margem de um lago solitário e tranquilo, se encontraram os quatro elementos: o Fogo, o Ar, a Água e a Terra. «Há quanto tempo não nos encontrávamos!», disse o Fogo, cheio de entusiasmo.
«É verdade», disse o Ar. «À custa de tanto pretendermos construir formas e mais formas, tornamo-nos escravos da nossa obra e perdemos a liberdade.».
«Não te queixes», disse a Água. «Estamos a obedecer às leis divinas, e é um prazer servir a Criação. Por outro lado, não perdemos a nossa liberdade. Tu, Ar, corres de um lado para o outro quando queres. Tu, Fogo, entras em toda a parte, servindo a vida e a morte. Eu faço o mesmo...».
«Afinal, só eu me deveria queixar!», disse a Terra. «Estou sempre imóvel, e, mesmo contra a minha vontade, dou voltas e mais voltas, sem descansar no mesmo espaço.».
Mas, de comum acordo, resolveram alegrar-se pelo facto de estarem juntos, o que raramente acontecia. Cada um deles contou o que havia feito durante a sua longa ausência, as maravilhas que tinha visto, o que havia construído ou destruído. Todos se orgulhavam pelo facto de terem feito com que a Vida se manifestasse nas mais variadas formas.
Mas... no meio de tão grande alegria, existia uma nuvem: O HOMEM! Esse abusava de todos eles, fazendo com que muitas vezes se perdessem no seu percurso. No entanto, essa nuvem dissipou-se e a alegria voltou a reinar entre os quatro irmãos. Pensaram então em deixar uma recordação que eternizasse a felicidade daquele encontro. Alguma coisa que, sendo composta de fragmentos de cada um deles combinados de forma harmoniosa, fosse também a expressão das suas diferenças. Algo que servisse de símbolo e exemplo para o homem. Depois de muito pensarem, os quatro disseram:
«E se construíssemos uma planta cujas raízes estivessem no fundo do lago, com o caule na água e as folhas e flores fora dela?...».
A ideia pareceu-lhes boa. A Terra ofereceu-se para alimentar as suas raízes. A Água prontificou- se a fazer crescer a sua haste. O Ar disponibilizou as suas melhores brisas para tonificar a planta. E o Fogo deu todo o seu calor para que a flor tivesse as mais formosas cores.
Fibra sobre fibra, construídas as raízes, as hastes, as folhas e as flores, os quatro irmãos terminaram a sua obra. Entretanto, o Sol nasceu e abençoou a planta, saudando-a como se fosse uma rainha.
Quando os quatro elementos se separaram, a Flor de Lótus brilhava no lago, exibindo perante o olhar dos humanos a sua beleza imaculada...
Foi assim que a semente da Iluminação passou a estar presente no mundo sob a forma de uma simples flor. Esta existirá enquanto houver condições para que a sua vida orgânica se desenvolva.
A nossa missão aqui na Terra (e a grande dificuldade) é conseguirmos sair do lodo, como o lótus. Mas temos o dever de nos limpar, de nos purificar, e devemos, acima de tudo, acreditar que somos capazes de o fazer.
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