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Nunca se percebe bem por que razão começa. Mas começa. E acaba sempre mal sóporque acaba.O primeiro amor não deixa de parte um único bocadinho de nós. Nenhuma inteligência ou atenção se consegue guardar para observá-lo. Fica tudo ocupado. O primeiro amor ocupa tudo. É inobservável. É difícil sequer reflectir sobre ele. O primeiro amor leva tudo e não deixa nada.
Diz-se que não há amor como o primeiro e é verdade. Há amores maiores, amoresmelhores, amores mais bem pensados e apaixonadamente vividos. Há amores maisduradouros. Quase todos. Mas não há amor como o primeiro. É o único que estraga o coraçãoe que o deixa estragado.Não há amor como o primeiro. [...] O primeiro amor é uma chapada, um sacudir dasraízes adormecidas dos cabelos, uma voragem que nos come as entranhas e não nos explica.Electrifica-nos a capacidade de poder amar. Ardem-nos as órbitas dos olhos, do impensávelcalor de podermos ser amados. Atiramo-nos ao nosso primeiro amor sem pensar onde vamoscair ou de onde saltamos. Saltamos e caímos. [...]Há amores melhores, mas são amores cansados, amores que já levaram na cabeça,amores que sabem dizer «Alto-e-pára-o-baile», amores que já dão o desconto, amores que játêm medo de se magoarem, amores democráticos, que se discutem e debatem. E todos osamores dão maior prazer que o primeiro. O primeiro amor está para além das categoriasnormais da dor e do prazer. Não faz sentido sequer.Não há regras para gerir o primeiro amor. Se fosse possível ser gerido, ser previsto, seragendado, ser cuidado, não seria primeiro. A única regra é: Não pensar, não resistir, nãoduvidar. Como acontece em todas as tragédias, o primeiro amor sofre-se principalmente pornão continuar.Os outros amores são maiores, são mais verdadeiros, respeitam mais as personalidades,são mais construtivos – são tudo aquilo que se quiser. Mas formam um conjunto entre eles. O segundo e o terceiro e o quarto, por muito diferentes, são mais parecidos. São amores que seconhecem uns aos outros, bebem copos juntos, telefonam-se, combinam ir à Baixa.
Mas é por ser insustentável e irrepetível que o primeiro amor não se esquece. Parece impossível porque foi. Não deu nada do que se quis. Não levou a parte nenhuma. O primeiro amor deveria ser o primeiro e esquecer-se, mas toda a gente sabe, durante o primeiro amor oudepois, que é sempre o último.É por isso que o primeiro amor fica com a metade mais selvagem e inocente de nós.Seguimos caminho, para outros amores, mais suaves e civilizados, menos exigentes e mais compreensivos.
Miguel Esteves Cardoso
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É pena não haver turismo no público em Lisboa :(
Amo-te