
Há dias, ao fim da tarde, antes de irmos à festa do Igor, fui com a Ema ao "Noo Bai", uma esplanada num recanto suspenso de Lisboa, com vista para o Tejo.
O "Noo Bai", fica para além do Adamastor e enquanto desciamos as escadas de ferro, ela confidenciava-me que tinha preferido ficar lá em cima a ver os malabaristas e os engolidores de fogo a praticarem.
Sentei-me na esplanada a beber uma cerveja que pedi ao balcão, na única mesa que estava livre e numa posição em que podia ver a minha filha a brincar com a Maria que devia ter cerca de um ano, pois tinha começado a andar há pouco tempo e começaram a fazer desenhos num quadro preto em ardósia, como os das escolas.
Toda a gente parecia estar feliz, como se aquele pôr-do-sol fosse apenas partilhado por quem ali estava naquele momento. Uma espécie de "nós", formado por desconhecidos que partilhavam algo de importante. Aquilo era algo mais do que ser dono do seu próprio Banco. Então, lembrei-me daquele empresário do Lusco-Fusco que dizia:
-Aquilo dura apenas uns minutos. Mas olhe que vale a pena. Imaginei-o naquele preciso momento a começar a "dar tudo", mas apenas por alguns instantes.
Na mesa atrás de mim, um homem e uma mulher que eu não via, conversavam.
Já tinha passado muito tempo, talvez até tempo demais, desde a última vez que eles tinham estado um com o outro. Tinham-se conhecido na Universidade há dez anos e não se viam há cinco, ou mais.
Ela casou, ele dava-se mal com o marido dela e nunca mais se viram. Até que hoje se haviam encontrado por acaso numa livraria do Chiado.
Ele, há muito perdera o contacto com os amigos comuns:
-O Márcio Jerónimo, por exemplo, quantas vezes é que ele me telefonou? E riu-se. Imaginei-o a encolher os ombros e a olhar para as luzes lá longe, do outro lado do rio.
Estavam nos antipodas. Da mesa, do mundo e um do outro também.
Ela casada, ele solteiro. Ela ancorada. Ele farto de viajar, de correr o mundo, de viver em locais remotos da terra, nas montanhas em casas de pedra sem electricidade no meio da natureza. E desafiava:
-Há sempre um preço a pagar pelas opções que tomas. Tás a ver? Podes virar à direita ou à esquerda. Escolheste virar à esquerda? Azar. Morreste ali..
Só queria ter visto a cara dela naquele momento, mas se me virasse, seria o fim. Ia ter de continuar a tentar imaginá-los.
A empregada passou por ali e sorriu. Eu devia estar com um ar um bocado fora dali. Reparei então que ainda não tinha tocado na cerveja. Dei um golo para disfarçar. Senti as orelhas a arder por ser um "voyeur". Um expectador da vida alheia. Mas logo me recompus: Afinal, se os pintores se podiam inspirar na natureza, como poderei eu evitar escutar a voz humana? Lembrei-me de ir sentado no "Metro" a ouvir as conversas e a tentar imaginar a vida daquelas pessoas.
Ele continuava a falar:
-Eu paguei o preço em solidão. E ria-se, enquanto eu tentava imaginar o ar dela a tentar disfarçar o desconforto que as palavras dele lhe provocavam ao revelarem sem pudor aquilo em que a vida dela se havia transformado. Quando teria sido ao certo o momento da sua morte? Tentou em vão lembrar-se do momento em que havia escolhido virar à esquerda.
Ele não. Estava só, mas não lhe parecia pesar a solidão. Ele é que tinha abandonado todos. Estava por sua conta e risco e parecia dar-se bem com tal situação: Free.. Lance.. dizia ele entre risadas:
-Não ando a pagar uma casa ao banco, não tenho agregado familiar, nem ordenado certo ao fim de cada mês, nem seguro de saúde, nem seguro de vida.. Tu tens o seguro, mas não a vida...
Fez uma pausa antes de prosseguir:
-Vê se entendes: Eu, para o Ministério das Finanças, simplesmente não existo. Dizia ele com orgulho evidente.
-Tás a ver? E ria-se muito feliz consigo mesmo ou da cara dela. E repetia-lhe para que ela não se esquecesse, ou como quem repete o refrão de uma canção:
-Há sempre um preço a pagar... E ria-se como só se riem aqueles que fizeram uma grande descoberta, uma descoberta ainda maior do que a própria vida.
Depois do véu de silêncio e constrangimento que pousou sobre as palavras dele se ter dissipado, ela arrisca:
-Porque te foste embora sem um destino? Um dia, desapareceste e nunca mais ninguém te viu... Por onde andaste tanto tempo? Parece que foi noutra vida. Tinhas uma vida fantástica e de repente, foste-te simplesmente embora...
Havia um tom de ácido ressentimento nas palavras dela que aquele tempo todo não tinha conseguido apagar.
Ele riu-se.
-Eu trabalhava 12 dias por mês e ganhava bem atendendo a que o meu trabalho consistia em não fazer nada durante a maior parte do tempo. Eu vivia em Sintra num velho palácio com piscina no jardim. Tomava conta da casa.. (risos) o trabalho era só ao fim-de-semana quando chegavam os turistas. Um dia senti que tinha chegado a hora de partir. Porque eu sabia que tinha que haver algo mais do que aquilo. Tás a ver? E exemplificava:
- Desses "amigos" todos de que falas, quantos me telefonaram nestes 10 anos? Ou eu a eles? O que perdi?
Ela nem pia..
Ele parece agora um toureiro a preparar a estocada final:
-A verdade é que nós já não temos nada para dizer uns aos outros.
E deixou que as palavras libertassem o aroma antes de continuar:
-Tu abraças-me, sorris e dizes-me: Quando estiveres em Lisboa, telefona, aparece para bebermos um café ou ires jantar lá a casa.. Mas tu sabes que eu não te vou telefonar. Sabes que eu não bebo café. E tu também sabes que eu não vou aparecer "lá em casa" para jantar...
Tu sabes que isso tudo faz parte de tanga global a que tu pertençes e eu não. Tu sabes e eu também sei que esta foi a última vez que estivemos juntos. Este pode muito bem ser também o nosso pôr-do-sol. O futuro não existe. Como no futebol, só existe o momento. Este momento.
E foi então que ele resolveu explicar-lhe tudo o que sabia:
- A tua vida só começa verdadeiramente a fazer sentido, no dia em que tu perderes o medo de ficar só.
E desta vez, ele não se riu. E perguntou-lhe:
- Tás a ver?
Nunca saberei se ela estava a ver ou ou não. A frase dele explodiu na minha cabeça em camera-lenta.
Não sei quanto tempo passou, sem que nenhum deles proferisse uma palavra. Aquele silêncio pareceu-me durar o tempo exacto de um Lusco-Fusco.
Levantei-me e chamei a Ema.
-Diz adeus à tua amiga Maria porque vamos embora.
-Ohh, pukê?
Eu ri-me, enquanto acenava à pequena Maria e aos seus orgulhosos pais, e respondi-lhe:
-Vamos à festa do Igor, tás a ver? E ri-me, olhando instintivamente para o rio que reflectia luzes vindas de ambas as margens e subi a escada a pensar que não tinha visto a cara deles.
À entrada da festa, uma mulher jovem com um sorriso bonito, em vez de uma bandeja com flutes de champanhe, estendeu-nos uma terrina com marcadores de acetato coloridos. A Ema tirou uma caneta vermelha e outra verde.
Por cima do ombro dela vi gente empoleirada e de cócoras com canetas na mão a pintar. Coloriam desenhos a preto feitos nas paredes brancas da loja.
Felicitei o nosso anfitrião pela fantástica ideia, cumprimentei os amigos e dirigi-me ao Bar, onde a Joana, empoleirada ao lado do barman, pintava as letras do reclamo luminoso de côr-de-rosa.
A Ema trocava de canetas com o Merlin:
-Troco a verde e a vermelha, pela côr-de-laranja e a azul.
glitter-graphics.com Um grande beijinho Tio :P